Quando eu era moleque, piazão mesmo, lá naquele universo paralelo entre os 5 e 9 anos de idade, eu tinha poucos amigos. Poucos mesmo. Em meio a essa parca sociabilidade a solução foi criar alguns mundos para onde eu poderia me retirar e brincar. Fiz coisas que deixariam minha avó passada, fui a lugares nunca dantes navegados, voei de guarda-chuva, construí armas mágicas e caminhei entre castelos no costão (e quebrei muitos telhados pelo bairro afora).
Por isso ao assistir Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are) eu me identifiquei absurdamente. Aquele sentimento de fundo, sempre presente, hoje claro, é o ponto de partida para o universo apresentado pelos olhos cheios de perspicácia de Max: a solidão.
Não que eu fosse sozinho. Era rodeado de carinho, família e tudo mais. Mas me sentia um pouco sozinho no campo ainda pouco explorado do interior não-físico de meu ser.
Onde Vivem os Monstros é uma síntese, acho eu, da infância de muitas crianças e muito marmanjo aí vai curtir. Fora que, pra mim, é um filme perfeito de Spike Jonze. Na medida certa. A inovaçãofoi mostrar esse universo sem deixar o copo transbordar.
Claro, o mérito é do autor do clássico infantil (será?), Maurice Sendak. Mas a tradução audiovisual do filme vai lá no fundo. A gente sente sem entender bem o que é, e depois, ao acabar o filme, começam as associações.
A hiperatividade de Max misturada com a frustração que ele mesmo não entende, a qual liberta seus “monstros” pra quem quiser ver, foi como olhar em um espelho. Está tudo lá: os ataques de raiva, a tentativa de chamar a atenção, o amor-ódio-indiferença-instinto-maturidade misturada, pronta para dar a luz a pessoa que ele será no futuro. Cada sentimento, bem alimentadinho lá dentro de Max, pode ser visto como um monstro em uma muito bem bolada ilha. (Taí, também cresci em uma ilha). Max é um retrato muito fiel, mesmo, de uma criança na situação dele.
A atuação do ator mirim Max Records é genial, direção e efeitos geniais, trilha sonora encaixa perfeitamente. Um universo tão bem criado quanto aqueles que desenvolvemos em nossas infâncias.
Ficou claro entender: fantasia é o sintoma da solidão, em qualquer medida, principalmente lá naquele tempo antes de tomarmos a decisão inevitável, porém adiável, de amadurecer e deixar pra trás, não sem antes ter aprendido muito, todos os nossos monstros.

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2 Comments
Citando Fernando Pessoa (através da interpretação de Rubem Alves), “pensar é estar doente dos olhos”.
A imaginação é uma reação fisiológica à angústia. A começar com a pergunta: “como seria se não estivesse doendo?”, que é a semente para a concepção imaginária do Paraíso e de tantos outros mundos que serviram de refúgio para crianças solitárias (a maioria).
E que serviram de refúgio para escritores e leitores. A Utopia de More, a Terra-Média de Tolkien, a Fantasia de Ende, a Pandora de Cameron…
Além disso, a imaginação é importantíssima para o trabalho de teorização da Ciência. Sem antecipar mentalmente uma hipótese, não seria possível testá-la.
Valeu a dica do filme.
Bem citado Thiago. A imaginação é refúgio seguro na imaturidade, ferramenta de criação e interrelação na maturidade e, com a dose certa de racionalidade, potencial inventivo e evolutivo. Abração.