Trust Me se puder

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O que me agrada ao assistir Trust Me, nova série da TNT que fala sobre o dia-a-dia de uma agência de publicidade americana, é identificar as idiossincrasias que pipocam na tela o tempo inteiro, dessa profissão. Em todos os episódios as situações apresentadas lembram meu próprio dia-a-dia nos últimos anos de profissão como publicitário. A série é focada na amizade da dupla criativa Mason (Eric McCormack ex “Will & Grace”), Diretor de Arte e Conner (Tom Cavanagh, o ex advogado de “Ed”), redator.

Tirando as contas milionárias atendidas pela agência, todos os clichês que vivencio (sem tanto exagero) estão lá: as alterações constantes nas peças criadas; o esforço absurdo de fazer a campanha acontecer para ser cancelada no último minuto já durante a produção; a relação atendimento e criação; o processo criativo dos brainstorms; egos inflados e por aí vai.

Chama atenção também, se olharmos criticamente, o quanto a profissão é retratada como um processo que beira a imaturidade em alguns momentos e apela para comportamentos infantis por parte dos profissionais. Eu diria que é sim um refexo da realidade, não é a regra mas é a tendência. Do valor da profissão não há do que falar, mas de como o meio gera comportamentos imaturos, baseados constantemente em uma supervalorização do eu fica evidente na série.

Pelo seu conteúdo que passeia pelo lúdico, a criatividade e o ambiente informal e descontraído, talvez o desafio maior das empresas de criação em comunicação seja o de serem levadas a sério. Por outro lado é essa postura criativa e artística o seu grande diferencial. É por isso que clientes pagam. Armou-se o paradoxo: ao mesmo tempo em que somos procurados devido a criatividade em comunicar, são essas características que remetem a uma imagem de pouca seriedade para a maioria dos clientes.

Em uma definição encontrada em um dicionário de idéias e conceitos comuns na Idade Média (bem antigo), li o seguinte a respeito de como eram considerados os artistas: “Artistas são todos loucos. Ganham quantias absurdas de dinheiro e jogam tudo pela janela. Uma mulher artista não pode ser considerada séria.”

Essa definição traduz um pensamento de séculos sobre o conceito de artista. E me assusta como em alguns contextos profissionais ainda são tão atuais. Quem trabalha a algum tempo na área pode confirmar: é essa visão distorcida que a maioria dos clientes tem dos profissionais de comunicação.

Arte em si é a capacidade da mente manipular e dominar a matéria. Isso por si só não traz nada de novo nos dias de hoje. Mas quando se acrescenta ciência à arte, temos a argamassa de verdadeiras inovações, soluções, coisas realmente úteis.

Penso que na publicidade não pode ser diferente. O desafio é superar esses séculos de conceito distorcido, mostrando que profissionais criativos não são mais “loucos que gastam grandes quantias de dinheiro”, mas profissionais que utilizam a arte ao seu favor, para comunicar de forma eficiente, inovadora e útil.

trust-me-tom-cavanagh-eric-mccormack-working-1-ph-art-streiber-tm-16760-0795-rVoltando à série Trust Me, o que sintetiza essa necessidade de seriedade sem perder a criatividade, é o diálogo entre o Diretor de Arte, Mason Maguire (McCormack) e o Diretor da Agência (Griffin Dunne), no primeiro episódio.

Mason recebe a promoção para Diretor de Criação e questiona porque ele e não Conner, seu parceiro e redator. O critério é que Mason seria “adulto”, tem a sério o negócio e não se deixaria levar pelos delírios imaturos e “criativos” como Conner o faz.

A série ainda mostra que valores como amizade e honestidade ainda tem lugar ao sol no ambiente competitivo da publicidade. Esse ambiente confiável internamente é uma das características que talvez mude a noção ainda persistente de que publicitários são pessoas em que não podemos confiar. Será?

Festival de Publicidade de Gramado

Já faz tempo, mas vale a pena. Em junho do ano passado participei pela primeira vez do Festival de Publicidade de Gramado, evento para o qual eu nunca havia dado muita importância. Na época procurei informações nos blogs de praxe, mas não houve muito alarde. Cheguei lá sem esperar nada, e fui literalmente surpreendido. Entendi porque o evento é um dos principais da América Latina nessa área.

O tema foi “A criatividade à frente das novas tecnologias”, e o conceito “As previsões falham, mas quem tem talento nunca é surpreendido” permeou todas as palestras e workshops.

Personalidades como Nizan Guanaes, Ehr Ray, Stalimir Vieira, Hanz Donner e diversos profissionais renomados de grandes agências estavam presentes para falar de criatividade, Marketing, inovação e prática em comunicação. Desde a abertura, com a apresentação do Japão sobre o novo sistema de TV digital no Brasil, até a última apresentação do Hanz Donner sobre, bem, ele mesmo, o evento valeu muito a pena.

Dezenas de peças publicitárias expostas, música na publicidade, gestão estratégica, o papel da comunicação na integração latino-americana e a responsabilidade social dos veículos de comunicação foram outras temáticas, todas mostrando como a área está em constante amadurecimento, aprofundando, saindo do superficial. Vivemos em um mundo de pessoas cada vez mais exigentes e conscientes. Essa nova realidade pareceu ser uma preocupação de todas as agências e palestrantes presentes no festival, o que ficou evidente quando as agências começaram a abrir suas estratégias, métodos e os resultados advindos disso (na medida do possível é claro).

O diferencial das palestras: foco em inovação na prática. Não foram apenas aquelas apresentações egotrípicas de praxe, com os publicitários mostrando seus prêmios e discursando sobre como são bons em solucionar problemas. Todas os palestrantes, sem exceção, tinham uma clara intenção de esclarecer, informar, exemplificar com a experiência em primeiro lugar. Estava presente a preocupação em qualificar o mercado, visto que a maioria do público era sem dúvida acadêmicos da área, o que não diminuiu em nada o nível das palestras para os profissionais. Outro ponto batido do início ao fim foi sobre integração. A frase “o futuro está com quem souber integrar” (DPZ) foi a palavra de ordem. Nesse quesito, as palestras da equipe da DPZ e do próprio Nizan foram o ponto auto do evento.

Quanto ao festival, foi uma ótima experiência: voltei a vislumbrar a comunicação como uma área que ainda tem muito a oferecer. Isso porque, como muitos estudantes incautos e profissionais não esclarecidos, eu tive durante muito tempo a tendência ao apriorismo de enquadrar a profissão de comunicólogo como apenas um manipulador das massas (como a maioria de fato o é). Mas também não dá pra ser ingênuo. Influenciar decisões de massa traz grande responsabilidade, pois implica gerar comportamentos individuais em vários níveis, pra bem ou pra mal, e as conseqüências dessas influências precisam ser consideradas seriamente por qualquer um que se diga profissional de comunicação.