Inovação evolucionista – a sapiência que faz evoluir

Nesses tempos onde Darwin está sendo (re)descoberto, muito andam falando de evolução associado à inovação. E parece que a relação é clara: a evolução é impiedosa com quem não inova.

evolucao

Ia escrever esse post falando de nossos primeiros antepassados e focado em inovação, quando li o artigo do Clemente Nobrega, que acompanho sempre na Época Negócios, sobre “A lição da pré-história”. Um pessoal foi pesquisar sobre porque os Neandertais começaram a desaparecer no decorrer de um período de 10 mil anos, justamente na época em que se encontraram com o Homo Sapiens. O resultado: os homo-sapiens souberam utilizar seus conhecimentos genéticos para se adaptar ao “mercado” da época, se especializando no que era essencial a sobrevivência.

Quando a gente fala em evolução, é fácil confundir algumas coisas. Primeiro a idéia que descendemos de macacos. Darwin nunca disse isso, temos sim antepassados em comum. A outra dúvida é de que espécies descendemos? De vários tipos. Não existia apenas um tipo de “homídio”, e sim vários, distintos entre si. Continue reading

Sobre a destruição dos livros na história

“As coisas que dão medo, são as mais interessantes”

Foi com essa frase marcante que Fernando Baéz deu força à sua palestra “Sobre a destruição de livros na história” ministrada em 19 de maio de 2007, aqui em Foz do Iguaçu. A frase justifica o medo que o autor sentiu 

ao tratar de uma temática tão intrigante quanto difícil e como o desafio valeu a pena.

Baéz é o autor do livro “História universal da destruição dos livros”, uma temática bastante inovadora e pertinente, pois trata da história do conhecimento registrado e de quanto foi difícil preservá-lo ao longo da história. 

O historiador tem uma história digna de um livro. Passou boa parte de sua infância vivendo em uma biblioteca, pois seu pai, como ele mesmo fala, era um advogado honesto, ou seja, desempregado, e sua mãe trabalhava o dia inteiro em uma mercearia. Assim, passava o dia inteiro entre estantes e dezenas de volumes na biblioteca pública de São Félix, na Guayana da Venezuela. Ali descobriu o valor da leitura, “Soube que devia ler porque não podia não ler.” “(…) quando folheava páginas tão íntimas, esquecia a fome e a miséria, o que me salvou do ressentimento ou do medo.”

Tudo isso é verdade e Baéz é realmente essa figura marcada por uma infância nada fácil e com a profundidade de alguém que leu e leu muito. E não apenas isso, pesquisa e tem tanta experiência quanto horas de leitura.

Quem é apaixonado por livros, pelo conhecimento, vai gostar do livro de Baéz, que traz a tona um assunto tão sério quanto negligenciado. 

A pergunta que motiva Baéz desde o início é a que um estudante em Bagdá o fez, quando do histórico saque e destruição de todos os livros da Universidade de Bagdá. Enquanto contemplava um professor de história medieval abandonar o recinto desesperado, andando entre crateras de mísseis, um estudante se aproximou e perguntou porque o homem destrói tantos livros. Essa é a pergunta que Baéz tenta responder desde então. 

Vivemos em uma época de fartura de conhecimento. Blogs, veja que maravilha, é possível a todos que quiserem poder expressar suas idéias e ser lido por quem desejar, no mundo inteiro. Mas somente ao ler o livro de Baéz e ficar a par de um assunto tão sério, percebi o preço que pagamos, ao longo da história, para isso ser possível. E como é tão fácil, usual e corriqueiro, perdemos de vista o esforço que fizeram tantos seres humanos antes de nós para que o conhecimento registrado fosse um bem acessível a todos. É importante entender para não banalizar.

Ao longo da história humana, expressar uma idéia original a qual representasse a quebra de algum paradigma vigente, religioso, cultural ou científico, era tão arriscado para a vida de um indivíduo ou povo quanto necessário para a evolução humana. Assim, nos relatos dos grandes genocídios, guerras e conquistas, um ponto comum se destaca: a destruição dos livros, dos registros daquele povo ou cultura. Por isso destruiu-se idéias e matou-se inovações. Baéz defende, e eu concordo, que ao longo da história destruiu-se tantos livros não pelo objeto físico e sim como vínculo de memória, como forma de sobrepujar uma cultura a outra, ideologias sobrepondo ideologias. “O que se destrói no livro é a racionalidade que ele representa”.

Quanto mais esclarecedor é um conteúdo mais pode abalar a ordem vigente, ou seja, incomodar os que dominam (e manipulam). Parece drástico, mas foram milênios de história para a coisa mudar e ainda hoje o que mais temos, apesar de toda a tecnologia ao alcance, é lixo informativo, bobagens, superficialidades. Esprema a internet e menos de 1% do que sair dali será realmente útil. O resto é capricho. É o que eu penso. Mas também acho que isso é necessário até certo ponto para que todo o resto, o que realmente importa, o conhecimento útil, seja acessível a todos. 

A internet consagrou essa maravilhosa era da informação disponível, porque o subjetivo de cada um ao ser escrito, torna-se objetivo. É aí que o conhecimento pode ser efetivamente compartilhado. Essa é uma das idéias base da internet, não por acaso surgida da necessidade partilhar conhecimento (mas isso é assunto para outro post).

Porém a forma de informar o maior número de pessoas ainda é por meio de livros.

Livros são uma das maiores inovações de todos os tempos e o resultado de registrar-se as idéias para que outros pudessem ter acesso (inclusive você mesmo) foi um dos fatores que, ao meu ver, promoveram definitivamente a evolução da humanidade para o ponto que estamos hoje, com essa liberdade quase ilimitada de expressão por meio de registros, físicos ou virtuais, como é o caso deste blog. Estamos na ponta atual da evolução dos registros iniciados pelas tábuas de barro, há milênios atrás.

Tem uma frase a qual resume o valor dos livros para a humanidade “Livros não podem mudar o mundo, as pessoas podem mudar o mundo. Livros só podem mudar as pessoas”. É como as idéias inovadoras: são válidas se postas em prática e isso também significa escrever. E compartilhar. 

É um valor que conquistamos, considerando que, segundo Baéz, a destruição de livros na história fez desaparecer pelo menos 60% de todos os volumes da humanidade. Os 40% restante se foram devido aos desastres naturais, acidentes, mudanças culturais e os próprios materiais decompostos. Isso é inquietante.

E para terminar, parafraseio Baéz: o certo é que, enquanto você lê esse post, pelo menos um livro está desaparecendo para sempre.

“A liberdade não pode ser senão a liberdade integral, para todos.” (Fernando Baéz)

Piratas da Inovação

Ontem assisti Piratas do Vale do Silício (Pirates of Silicon Valley, 1999), o filme legal que conta a história da criação da Apple e da Microsoft com foco nas personalidades e temperamentos de Steve Jobs e Bill Gates. E fiquei sabendo que hoje é o 32º aniversário da fundação da Apple, criada em 1º de abril de 1976 por um Steve Jobs new age e seu amigo Steve Wozniak, o verdadeiro gênio por trás dos computadores que tanto gostamos.

O nome do filme é Piratas porque era isso que aquele pessoal fazia: “pilhavam” idéias, aperfeiçoando, adaptando conforme sua visão. A idéia de interface gráfica e o mouse por exemplo, foram criadas por uma equipe da Xerox e não pela Apple. Mas os executivos da Xerox na época eram tapados demais para entender a importância disso e deram de mão beijada a tecnologia para a Apple, durante uma visita de Jobs. A equipe que bolou as tecnologias ficou arrasada.

Já a cena que mostra Bill Gates e Paul Allen na IBM, na reunião que resulta a empresa bilionária que conhecemos hoje, serve para um misto de indignação e admiração por Gates. Ele chega e diz “vocês tem os computadores, nós temos um sistema operacional, chama-se DOS”. Na verdade eles não tinham absolutamente nada para oferecer à IBM, compraram o tal do sistema operacional horas depois de um desconhecido, por 50 mil dólares e o aperfeiçoaram. A IBM achou ótimo pois eles só pediram em troca os direitos para licenciar o sistema operacional, na visão deles um ótimo negócio, já que ninguém iria querer usar isso. Mal sabiam eles.

O filme é cheio de diálogos memoráveis, principalmente agora que já sabemos onde essa brincadeira toda levou. A Dobradinha Gates/Allen e Jobs/Wozniniak mostra que por trás de grandes inovadores é preciso pessoas competentes para executar.

Por exemplo, Steve Wozniniak (o cara que desenvolveu o primeiro computador pessoal, amigo e braço direito de Jobs) tinha um contrato com a HP que o obrigava a mostrar todos os seus inventos para a diretoria em primeiro lugar. Steve ficou apavorado, pois haviam acabado de criar uma das maiores inovações da história, o Personal Computer, futuro Machintosh, mas poderiam perder tudo nessa reunião.

O diretor da HP na época, fala no diálogo: “Steve (Wozniniak), segundo você, isso é para pessoas comuns. O que pessoas comuns iriam querer com computadores?” Para a alegria de Jobs a HP recusou o invento.

Inovações surgem a todo instante, mas o uso que se dá a elas, a direção a tomar, a escolha de como apresentar é que faz a diferença. E nisso Jobs e Gates tinham o diferencial. O filme deixa claro que uma empresa está ligada ao temperamento de quem a comanda, é uma extensão de sua personalidade, e as pessoas que lá trabalham, os negócios, as tecnologias e produtos, sofrem essa influência.

O mais interessante é acompanhar o temperamento dos dois personagens durante o filme. Desmistifica Gates e Jobs, esse último com o comportamento detestável e as loucuras que sabemos, levaram à sua demissão. Sem deixar de lado os méritos, é claro, percebemos um Steve Jobs passional, artista, sempre em busca de algo, tentando encontrar a família que nunca teve na criação da Apple e melancolicamente perdido em si mesmo. Por outro lado um Gates racional, decidido, calculista, com uma ética duvidosa e sabendo exatamente o que quer. O que tinha em um, faltava em outro.


 

Espero ver em breve uma refilmagem, séria e bem dirigida, atualizada, dessa jornada que, como diz certa parte no filme, deveria constar nos livros de história.

 

Diálogo memorável: Jobs - “Nós somos melhores que vocês. Nosso software é melhor.” Gates – “Você não entende, Steve. Isto não importa.” – Bom, hoje em dia já importa.

 

Jobs e Wozniniak “O computador para o resto de nós”.

Mais um pedaço da maçã

Não dá pra falar de novas idéias sem falar da Apple. Quinhentos blogs já devem ter postado sobre isso (deveria haver uma espécie de iniciação para blogs com essa temática) mas, bolas, sempre vale a pena morder mais um pedaço dessa maçã.

Hoje eu estava prestes a postar este texto sobre a apple e (grata surpresa) ao acessar o blog da amiga, designer e aficcionada por gatos, Leila Lampe, descobri que pensamos no assunto sincronicamente. O post dela de hoje completa esse. Aliás, recomendo o blog gato preto, é excelente.

Enquanto a Microsoft termina a semana mostrando novas tecnologias de publicidade digital , a Apple entrou (novamente) em minha vida nesse ano, com a aquisição de uma linda maçã branca, a MAChine perfeita no momento certo, um Macbook, o que é o motivo verdadeiro dessa postagem.


Aliás, vi hoje no blog Oficina das Cores Macbooks com desenhos à laser, como esse aí do lado. Eu teria posto a maçã em um galho. Quanto deve custar pra fazer isso?

Sobre a Macintosh, esse nome é justamente um tipo de maçã, apreciada por Jef Raskin, o cara que começou o projeto do Mac lá no final da década de 1970.

Fuçando no Blog.Macmagazine, vi um post da Luciana Schmoeler com um link para todos os anúncios da Apple veículados entre 1977 e 2002. Vale a pena, basta entrar no macmothership.

A criatividade, sempre pertinente, acompanha a publicidade da Apple desde os primórdios, e a importância dada à apresentação da marca faz toda diferença. Ousadia sempre com muita inteligência e exalando inovação, articuladas pela mão experiente (e estriônica) de Steves Jobs. É aquela coisa, se o produto é bom basta contar a verdade da melhor forma que o sucesso é garantido. E isso Jobs faz primorosamente. Além de ser um excelente vendedor e showman, é um visionário. Desde que retornou à Apple, em 1997 (depois de 12 anos de ausência) cada novo lançamento da Apple leva um pouco de suas “neosinapses”. * Exemplo: o desenho/projeto do primeiro iMac (1998), aquele computador colorido, semi-transparente e pioneiro em utilizar apenas duas peças (monitor + teclado), ao ser levado para os engenheiros especialistas, foi dito impraticável, por um calhamaço de razões. Jobs não quis saber, disse que mesmo assim seria feito. Foi o maior sucesso da Apple em décadas, colocando-a novamente no mercado de computadores pessoais.

É justamente essa postura de não abrir mão das boas idéias, colocando sempre a forma em função do conteúdo, que faz o diferencial. Enquanto as outras saem dando tiro para todos os lados, a Apple tem uma lista pequena de projetos, mas todos com grande potencial. É esse foco que faz com que a empresa realize muito, com pouco. Aliás, o lema do “Make it Simple” está presente em todos os seus produtos. Para levar o cliente adotar a marca não basta apenas uma linda roupagem – esse é apenas o atrativo. É preciso ter muito conteúdo. A evolução da Apple mostra os conceitos de qualidade, design, exclusividade, inovação e criatividade continuam agregando valor à marca impecavelmente.

E falando em forma, a última relacionada à Apple é surreal: a policia dinamarquesa foi fazer uma batida na casa de um suspeito de roubo de cartões de crédito e ao abordarem o cara, interrogaram sobre onde estava o “computador de verdade”, pois ao verem o iMac (G1) disseram que não queriam saber “só de uma tela”. O diálogo é ilário. Confira aqui .

* Fonte adicional: Revista Época Negócios – Nº 1 (excelente).